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O DUELO GLOBO-RECORD, FALTOU DIZER... “Onde na Bíblia está escrito que os servos do Senhor devem financiar a expansão do reino das trevas? Antes, não deveria ser o contrário?” Paul Freston Waldo Luís Viana* dedico este artigo a Orlando Maretti (que colabora brilhantemente em dois parágrafos) Nos anos 30 e 40, do século passado, era grande a preocupação dos protestantes tradicionais norte-americanos com o poder do rádio e, depois, da televisão. Diziam que esses veículos, que começavam a ganhar a simpatia das massas, eram coisa do diabo e tiravam o povo das igrejas. Hoje, não há confissão protestante que não reserve as energias para obter horários caríssimos em rádios e TVs, quando não desejam possuir tais veículos para espalhar transversalmente o próprio proselitismo. O que mudou o diabo ou eles próprios. É relativamente simples de explicar: toda vez que um protestante não consegue explicar um fato ou um fenômeno que não domina, simplesmente diz, para simplificar, que aquilo é coisa do diabo. Os espíritos menos exigentes precisam sempre dessa simplificação entre mocinho e bandido, entre “good guys” e “bad guys”, entre Deus e o diabo para que os simples saibam, com segurança, para onde estão rumando, se para o bem ou para o mal, se para a virtude ou para o pecado, que, etimologicamente significa “desviar-se do rumo”. O rádio e a TV que eram veículos do diabo tornaram-se, enfim, com a presença dos evangélicos em emissões de luz plenamente aceitas, divulgadores das mensagens do Pai e algumas emissoras dentro e fora do Brasil adquiriram forte conteúdo confessional, seja católico ou protestante. Do mesmo modo, outras religiões fizeram o mesmo e temos rádios e TVs divulgando toda espécie de religião através do mundo (que significa “lugar limpo”), o que não é um mal em si. Passa a ser um mal, quando por trás dos programas leigos esconde-se a intenção de angariar adeptos para uma só igreja, forçando a aceitação daquele princípio: todas as igrejas são boas, mas a nossa é superior, porque aqui Deus e Jesus operam... No Brasil, vemos uma floresta de seitas percorrendo a madrugada a dentro nas TVs aberta e a cabo, a ponto de, se na minha sala eu abrir minha carteira, é capaz de um pastor qualquer pular de dentro do vídeo e com argumentos suaves efetuar a punga dos meus haveres, sem remissão. São tantos pastores que, se eu fizer a contribuição de dízimo e oferta para cada um estarei falido e nem Cristo, com toda a sua bondade, conseguirá me levantar! O movimento evangélico veste-se, assim, de roupagens pagãs, tangenciando perigosamente o Código Penal, como aconteceu com o casal Hernandez, da Igreja Renascer, que por causa de um fundo oco de 55 mil dólares numa Bíblia, acabou com coleira no calcanhar e prisão domiciliar, mesmo num país majoritariamente protestante, como são os Estados Unidos. Lá, a justiça é diferente daqui e pega os ricos. Não tem mais, mais, mais, advogados milionários e instâncias recursais sistemáticas... Aqui, as igrejas de fundo de quintal pululam, não por enorme piedade da população, mas porque são um grande negócio. Quando crescem muito, fazem enorme sinergia de negócios, montando editoras, gravadoras de discos, erigem enormes templos e compram rádios e televisões, além de espaços de cinema e teatro nas grandes cidades. A floração de pastores que fazem exorcismos e curam , em “o nome do Senhor Jesus” é de tal monta, que se fossem majoritários neste país eliminariam os cursos de medicina e psicologia. Ora, a Bíblia é um livro eminentemente moral, não ensina a fabricar helicópteros, pontes ou sofás. Não ensina a forjar espadas nem armas e não pode ser manobrada para toldar o evidente analfabetismo de certos representantes de Deus. O título de pastor deveria ser dado a uma pessoa com, no mínimo, quatro anos de estudos em seminário teológico, o que não tem acontecido. Existem pessoas se dizendo pastores com cursos locais de, no máximo, seis meses ou um ano, sendo que alguns nem instrução têm. Essas pessoas têm declarado ter recebido unção e revelação de Deus para pregar a Sua palavra, mas são completamente leigas no assunto. Alguns pastores têm se envolvido com prostituição, usura, sonegação de impostos, homossexualismo e até perda da fé – o que tem levado muitas pessoas a se desviar da religião por caminhos alheios à própria vontade de Deus. Nesse cenário, vemos a apropriação desses grupos de TVs abertas, que por si só já são um descalabro, em busca apenas audiência e afirmação de mercado. Sob tal pretexto, impingem ao povo brasileiro o pior padrão de qualidade, embora o conteúdo se distinga das condições tecnológicas que são de última geração. Praticamos uma programação de difusão da ignorância, de obscenidades e de tudo o que não presta com os melhores equipamentos do mundo, a pretexto de que o povo quer tudo assim mesmo. Prefere ouvir cem duplas sertanejas a um concerto de Brahms. Aliás, nesse caso, os diretores de TV argumentariam que o povão confundiria o ilustre musicista com a cerveja Brahma ou então achariam que Bach é companheiro de boteco de Beethoven...
Escrito por edilvabandeira às 18h25
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CONTINUAÇÃO............ Não há escapatória, o padrão Globo de “qualidade”, voltado para atingir da classe C para baixo, vem sendo copiado diligentemente pela Rede Record, incomodando demais a recordista de audiência. Para se livrar da concorrente, a Globo pratica espantosa guerra comercial, com nostalgia das facilidades colhidas durante o regime militar, em que fazia acordo com os coronéis e donatários da política brasileira. A Rede Record tornou-se um problema ainda maior, porque articulou o poder midiático – com equipamentos de ponta, de última geração – com o componente ideológico-religioso, um formidável instrumento de manipulação das massas. É uma rede de rádio e TV declaradamente confessional. Seus principais dirigentes, o pessoal que realmente decide é religioso, quase sempre “bispos” da Igreja Universal do Reino de Deus - IURD. Se parasse aí, tudo bem. A hegemônica igreja católica sempre teve suas rádios e canais de TV (com baixíssima audiência), ou outras que fazem a “linha auxiliar”, como a Rede Globo, que tinha até pouco tempo o padre performático Marcelo Rossi como galã de batina. Mas, além da programação sensacionalista e alienante (igual a todas as outras, só que com maior requinte técnico), a IURD ajudou a montar a maior bancada do Congresso, a “bancada evangélica”, formada por fiéis seguidores de seitas pentecostais, não só da IURD. Para tanto, Edir Macedo e seus “bispos” resolveram investir no próprio partido, o Partido da República (PR), para ter uma bancada mais coesa e sob total controle político e ideológico e, obviamente, de seus interesses, através da cúpula da IURD. Os políticos (todos, de qualquer confissão religiosa e até os ateus) cortejam o eleitorado dito “evangélico”, leiam-se pentecostais, nos períodos eleitorais. É importante distinguir essas seitas das religiões derivadas do protestantismo (presbiteriana, metodista, anglicana, luterana), que, aí sim, têm muito a ver com a tese weberiana de expansão do capitalismo. Porque tais seitas nascem como cogumelos em campo molhado, disseminam “pastores” milagreiros pelo país, a exemplo do que aconteceu a partir da década de vinte do século passado, nos Estados Unidos (importante ver o clássico Elmer Gantry (“Entre a Cruz e o Pecado”), baseado em Sinclair Lewis e dirigido pelo grande Richard Brooks. Ora, ter partido próprio e com essa força não é pouca coisa no cenário político brasileiro. É bom lembrar de que Lula tem como vice o empresário José Alencar, filiado ao Partido da República. O “bispo” Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, já foi e será forte candidato ao governo do Rio de Janeiro, e é dirigente nacional do PR. Todas essas conexões provam o conceito de religião degenerada e pagã, a ponto de o Bispo Macedo ter dito, defendendo-se dos argumentos da Globo em recente entrevista à Rede Record, que “detesta” religião. Ora a IURD para ele não é religião, é máquina coletora de grana, a custa da boa-fé dos incautos e vai realmente ao infinito, até os países islâmicos como ele quer, se não for detida pela lei brasileira e nossas três instituições beneméritas de Estado: a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público, a Santíssima Trindade visível em que nós brasileiros deveríamos confiar! A Universal, com seu braço midiático, a Rede Record, tem pretensões, em cinco ou dez anos, de lançar candidato a presidente da República, que não será o Bispo Macedo, que além de ser hoje cidadão norte-americano (naturalmente para se livrar do fisco daqui) ainda amarga um diabetes crônico e terrível, felizmente administrado por Deus. Eles gerarão o candidato, construído, como mórbida criatura da noite nos subterrâneos do Partido da República, que nos deu, além do vice, José Alencar, o espantoso ministro Mangabeira Unger, que disse ser o governo Lula o mais corrupto da história do Brasil – frase de efeito com a qual, aliás, este escriba concorda plenamente. O conflito Globo-Record não é apenas, como se pensaria, uma guerra de interpretação dos Evangelhos ou guerra comercial por audiência. Representa muito mais, é a flor do Lácio da corrupção, plenipotenciária, triunfante – aquele tipo de duelo que desespera o observador que, quanticamente, para qualquer lugar em que olhe, não dá para entender nada, quem tem razão, quem não tem e de onde, afinal, a bala vem... Ora, o diabo é dialético, finge-se de manso ou que não existe para melhor operar. Jesus espera os últimos dias para surgir triunfante, mas que demora, poxa!, com a gente tendo que aguentar essa floresta de corruptos que viceja em terras de Cabral. A corrupção, aliás, por aqui Caminha, desde Pero Vaz... ________ *Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e se benze sempre ao ver o Bispo Macedo na televisão... Teresópolis, 20 de agosto de 2009. Nota: Esse texto foi enviado pela colega Tânia Vilela, professora de língua portuguesa da rede pública estadual paulista. Achei-o muito interessante e pertinente, por isso resolvi compartilhá-lo com os leitores desse blog.
Escrito por edilvabandeira às 18h25
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